Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Os new hippies

Martha Medeiros

Não acredito que alguém tenha o poder de prever o futuro, somos todos um bando de chutadores, de Nostradamus a analistas políticos, uns com mais prestígio do que outros. Mas a arte de chutar é legitima: às vezes a bola entra. Arnaldo Jabor, por exemplo, anda chutando umas previsões que têm tudo para converterem-se em gol. Diz ele que é provável que venha aí uma nova onda hippie, para se contrapor a esta época endurecida de agora.

Batas e saias indianas já temos nos armários, o que falta agora é vestir a mente tal qual a moda veste as vitrinas. Estamos usando jeans rasgados e ideias engomadinhas, estamos usando muitos colares étnicos, mas as emoções andam de concreto, a coisa toda parece liberal dos olhos pra fora, mas do peito pra dentro, jaula. Nossos deuses? Euro, dólar. Nossos ídolos? Virtuais, efêmeros.

A onda hippie dos anos 60 foi, antes de tudo, uma negação. Todo movimento é isso: ruptura de costumes, uma manifestação de desagravo a tudo aquilo que foi esquecido, no caso: paz, prazeres, princípios. Está na hora de fazermos, de novo, um tributo ao sensorial.

A nova onde hippie não teria trilha sonora de Joe Cocker, talvez música lounge se preste mais. As drogas seriam substituídas por incenso, yôga, meditação, viagens esotéricas porem não lisérgicas. Não haveria uma rejeição ao trabalho, e sim uma saudação à independência, um faça-você-mesmo amplificado, as pessoas saindo em busca de soluções caseiras para problemas corporativos, divorciando-se de chefes e papeladas, e também soluções caseiras para as pressões sociais – se eu quiser casar só aos 50 anos, caso; se não quiser ter filhos, não tenha. Faça-você-mesmo sua vida.

Uma onda riponga sem vagabundagens, puramente emocional. Pessoas rejeitando símbolos de status, vivendo mais de acordo com sua natureza, respeitando mais sua índole do que sua ambição, curtindo mais a serenidade do que a adrenalina. Mas nada impede que continuem a tomar banho.

Puro chute. Pois nada disso acontecer, e as pessoas ficarem cada vez mais ansiosas e reféns das gravatas, das grifes, dos padrões aceitáveis de comportamento. Eu sonho com uma parada estratégica onde todos digam: basta.

Alforria pra nós! Chega dessa necessidade incontrolável de consumir, e incluo aí o consumo de informação, que está nos enlouquecendo aos poucos.

Que seja bem-vindo um mundo mais retrô, um pouco de freio nesta sociedade avançada demais, maníaca demais. Que 2003 nos seja leve.


Domingo, 29 de dezembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.